Sunday, October 07, 2007

E finalmente, após meses de espera, projetos adiados, alterados, cancelados e pessoas que ainda não viram “Sexo Mata” (um dia eu prometo que vou upar o vídeo pra internet e claro, mandar cópias para todos vocês, juro), vamos acelerar o nosso cronograma de produção.

Le Chauffeur et la Liberte”, nosso querido filme francês, será atrasado por conta de problemas de pessoal, técnica e cenografia (ainda não achamos uma parte de Juiz de Fora que realmente pareça com Paris e o Yuri, o produtor, ainda está fazendo a seleção do elenco) então ao que parece “Liberdades Criativas”, uma história bem mais “filmável”, vai ocupar seu lugar. Então, para que todos já comecem a conhecer o roteiro (ainda que sob forma de esboço, praticamente um conto ainda), aí vai a história.


Liberdades Criativas


Todas as citações foram retiradas dos respectivos depoimentos cedidos à polícia militar, jornais da época e revistas especializadas em cinema, durante o caso do “Roteirista assassino”, que abalou o país em meados da década de 90.


“É, matei todos eles mesmo, e mataria de novo! Você não entendem! Eu criei uma obra de arte e aquele canalha destruiu tudo! Tudo! Ele simplesmente transformou o meu “Cidadão Kane” em mais um filme idiota que vai ser lançado diretamente em locadoras! Ele tinha que morrer!”

Ruy Lopello, roteirista de “Quatro Velas no Morro dos Ventos” em depoimento à policia militar sobre os 28 assassinatos dos quais foi acusado, incluindo Vicente “Louco” Anfredini, o diretor do filme e Luís Carvalho, um dos produtores.


“Ah, foi tudo muito clichê, se você quer saber a minha opinião. A hora em que ele entrou na sala do Vicente com uma faca na mão gritando “Você cortou meu filme eu vou te cortar!”, aquilo era Wes Craven num dia ruim...Meu Deus...Matar o montador e o editor enforcados com rolos de filmes teve lá a sua poesia? Claro que teve. Mas tenho certeza que eu pensaria em coisa melhor.”

Thiago Lima, co-roteirista.


“Ele estava se dedicando muito à esse filme...Eram horas e horas escrevendo, reescrevendo, acho que ele nunca gastou tanto tempo com alguma coisa. E parecia estar indo tudo muito bem, até que lá pelo segundo mês de filmagens ele chegou em casa transtornado falando algo sobre um musical com dançarinas e cavalos marinhos, acho que era isso, e xingando muito aquele tal de Vicente. Depois disso ele passou dois dias sumido e depois vocês vieram aqui me contar isso tudo...Ainda não consigo acreditar...”

Alexandra Lopello, esposa do roteirista Ruy Lopello.


“O filme estava ficando caro, vocês me entendem...E eu estava entre dois malucos, o Ruy, que achava que era o Albert Hitchcock ou o Orson Welles e tinha até pedido pra dirigir o filme e o doente do Vicente, que achava que podia mudar o texto na hora que quisesse...Ele andava até com um roteirista amador colado nele o tempo todo só pra reescrever o texto na que ele quisesse...Era um maluco...Sabe quanto eu gastei com aqueles cavalos-marinhos? Fico até feliz de um estar preso e o outro morto. De hoje em diante vou produzir apenas adaptações cinematográficas dos livros do Paulo Coelho. Não quero mais saber de gente metida a gênio por aqui.”

Paulo Hassam, produtor-executivo de “Quatro Velas no Morro dos Ventos”


“Quando ele entrou na sala com a faca eu achei que boa coisa não era. Quando eu vi que aquela coisa na outra mão dele era a cabeça da Sandra, aí eu tive certeza. Só deu tempo de ver o Thiago correndo, o Vicente esguichando sangue. Nunca pensei que sangue jorrasse daquele jeito. Totalmente Quentin Tarantino! Acho que até a camisa amarela dele era uma citação, sabe? Ele só não me matou porque eu também achei a idéia do musical com cavalos-marinhos uma bosta. Porra, cavalos-marinhos? Só um retardado pensaria nisso...O que? Ah, sim, eu fui convidado pra dirigir um filme sobre o caso sim, mas ainda não tem nada certo.”

Alberto “Pulga” Mendes, assistente de direção.


“Olha, ele estava com uma faca bem grande e um revólver. Mas estava sentado num canto, quieto, até que começou a gravação. Eu não me preocupei, afinal, dizem que roteiristas são assim mesmo...Conforme as falas iam sendo ditas ele parecia ficar mais nervoso. Uma hora eu acho que ele explodiu. Foi aí que ele acertou dona Sandra na cabeça, o seu Rodolfo na barriga e saiu atirando até naquele japonês que ficava fazendo quadradinho com a mão o tempo todo. Eu saí correndo com o resto do pessoal, mas parecia que ele nem prestava atenção na gente, ele só acertava no pessoal da produção e nos atores. Quando as balas acabaram ele saiu gritando e aí eu não vi mais o cara.”

Isabelly Luysa Silveira, figurante.


“Eu estava lá quando ele acertou a Sandra, o Rodolfo e o Takeshi. Acho que ele não gostava da Sandra porque ele queria outra atriz pro papel principal. Por aqui o pessoal dizia que ela só tinha entrado no filme porque dormia com o diretor. Mas como diziam a mesma coisa do Rodolfo, não dá pra ter certeza de nada, né? Já o Takeshi eu não sei muito bem porque ele matou...Acho que tem algo a ver com o enquadramento que o Takeshi dava pras cenas...Ele é muito experimental, sabe? Gosta de usar uns ângulos pouco comuns de vez em quando...Lembro da cena de sexo no começo do filme que ele quis filmar da perspectiva do zíper do Rodolfo...Gastaram quatro horas pra encaixar a câmera dentro da calça dele...”

Suelen Oliveira, atriz que fazia o papel de “Susana”, a melhor amiga da personagem “Louise” interpretada por Sandra Pink, atriz assassinada por Ruy Lopello.


“Não é verdade que eu tenha mostrado ao Ruy o local onde o Vicente estava! Eu jamais faria isso! O que? Ah, sim, as alterações do Vicente e do Thiago no roteiro tinham tirado quase dez cenas do meu personagem, sendo que a melhor delas foi substituída por aquele musical escro...digo, aquele musical com os cavalos-marinhos. Mas eu nunca ia me tornar comparsa de um assassino por causa disso. Essas pessoas que dizem que me viram indicando com a mão a direção da sala só podem estar loucas! Talvez em um momento de pânico eu tenha sim movido as mãos, mas nunca com intenção de apontar nada! Foi no máximo uma infeliz coincidência. Hã? Ah, sim, fui eu que fiquei com o papel do finado Rodolfo na nova versão do filme.”

Anderson Simas, ator que fazia o papel de “Beto”, o rapaz que disputava com “Augusto”, o personagem de Rodolfo Lopes, o amor da personagem “Louise”.


“Vamos tentar filmar as cenas que faltaram, refilmar as cenas danificadas durante o...ham...o acesso de raiva do Ruy... e lançar um DVD duplo, incluindo a versão do Ruy e a versão do diretor. E no aniversário de um ano do massacre vamos lançar um box especial com os dois filmes e mais um disco de extras, incluindo a famosa cena dos cavalos-marinhos. O filme é muito bom e essa publicidade toda agora apenas comprova isso. Espero até o final do ano conseguir vender os direitos de “Quatro Velas no Morro dos Ventos” para uma das “majors” americanas para uma refilmagem lá nos EUA. Sinto até cheiro de Oscar.”

Odurval Duarte, irmão de Sinésio Duarte, o produtor assassinado por Ruy Lopello.


“É, ele matou a mulher do cafezinho só porque sempre que ele chegava na cantina ela dava café frio pra ele e guardava o café quente pros atores principais e pro diretor.”

Helena Silva, figurante.


“Eu vi os rolos que sobraram e ficou tudo uma bosta. Sabe um filme tão ruim que nenhuma emissora aceitaria passar nem no meio da madrugada de terça pra quarta? É isso. É péssimo. Os atores são uns merdas, o diretor era um anormal, todos os cinegrafistas deviam estar cheirando pó royal durante as gravações porque tudo está fora de foco, o roteiro é uma bosta sem termos de comparação, em suma, tudo é ruim. Acho que, sinceramente, eles tiveram um final merecido. E isso porque eu nem vou me dar ao trabalho de comentar a cena dos cavalos-marinhos. Aquilo é o pior que o cinema pode oferecer à humanidade. Até Mike Myers vomitaria.”

Max Andrade, crítico de cinema.


“As coisas tomaram um rumo estranho. Pensa só, a gente aprova um orçamento pra um filme de suspense, poucos atores, poucas locações, um homem só responsável pelo roteiro e pela direção, parecia tudo muito bem encaminhado. Um filme despretensioso, com sorte ia dar algum lucro, ou pelo menos a gente saia empatado, sem prejuízo. Quando eu volto de viagem já tínhamos um diretor que se achava o próprio Fellini e agora está morto, um roteirista assassino, um monte de corpos espalhados pelo set, incluindo dois atores principais que não eram os que eu tinha contratado, várias faturas relativas ao aluguel de animais marinhos, o editor e o montador enforcados com rolos de filmes, que custam caro demais pra serem usados pra uma função desse tipo, e nem um cafézinho quente, porque mataram a mulher do café também. É o tipo de coisa que impede o cinema nacional de dar certo...”

Silas Prieto, produtor-executivo e um dos principais financiadores do filme.


“O Luís nunca gostou daquele roteirista idiota. Quem ele pensava que era? O Luís tinha todo o direito de mudar as falas, escolher os atores, essas coisas. Ele sabia muito mais de cinema do que todos aqueles idiotas com quem ele trabalhavam e estava fazendo um filme lindo. Acredita que aquele idiota não queria deixar o Luís criar um papel pra nossa filha, a Lucinda? Disse que a menina atuava mal e ainda por cima falou que o Lu ia estragar o filme se colocasse mais uma personagem feminina! E o pior de tudo, depois que ela entrou no filme ficou o tempo tentando arranjar um jeito de matar a personagem dela! A minha filha! O que custava deixar a garota viva e junto com o mocinho no final? Ela atua muito melhor que aquela piranha da Sandra!”

Diana Carvalho, viúva do produtor Luís Carvalho


“Todo mundo está culpando a cena dos cavalos-marinhos pelos assassinatos. Isso é muita injustiça da mídia! A maioria das pessoas que critica, que fala isso tudo, nem chegou a ver a cena toda! É muita injustiça! A cena ficou linda! Só um maluco como aquele pra não gostar desses lindos animaizinhos dançando ao som de “My Heart Will Go On”...Mundo cheio de gente doente!”

Dante Giovanni, coreógrafo da cena dos cavalos-marinhos.



Na próxima semana vou colocar aqui a primeira escalação de elenco, com os primeiros nomes que surgiram em minha mente para cada personagem. Então, é claro, vamos mudar tudo e eu vou perder o controle do filme, como sempre acontece.

Shimuu para todos!


Atualização: Esqueci de avisar a todos que “Sexo Mata” está inscrito no Festival Primeiro Plano de Juiz de Fora e, enquanto eu ainda pesquiso outros festivais, teve uma cópia enviada para a África, onde servirá como instrumento de tortura de alguns regimes totalitaristas contra seus dissidentes políticos e ajudará a matar de raiva as pessoas que sobreviveram as constantes visitas da mala da Regina Casé.